Um bom encontro com a cozinha da autenticidade

Quando dias especiais pedem visitas a lugares especiais, geralmente a gente corre para lugares onde previamente tenhamos nos sentido bem. No último domingo, 4, foi meu aniversário e decidi correr para o melhor tempero do mundo, que é uma boa amizade. Marquei com uma grande amiga, Mariana, e lá fomos comemorar minha nova idade e desventurar por uma boa comida

Flávio Marques, amigo de longa data, reinventou sua casa – antes Prouvot – e acertou no convite à chef Clara Meneses para criar um novo menu e fazer o Solo brilhar. A técnica do cardápio anterior era excelente, a comida também.  Em comum com os dois tempos, passado e presente, têm uma dose certa de técnica. Mas são bem diferentes na execução. A coisa da mudança é sempre um grande susto pra gente. Meu ano pessoal foi bem marcado com essa palavra. Arrisca, acredita e acontece. Tudo no seu momento. E vai dar certo com a mesma intensidade da vontade de transformar.

Na casa, que visitei pela primeira vez com o antigo nome, só as paredes são as mesmas. A cor é outra, saiu do bordô classudo para um tom de amarelo mostarda, quadros simpáticos e coloridos, muitos pássaros. Aconchegante. Um time sorridente no atendimento também faz a coisa brilhar por lá.

Nas mãos, uma peça de MDF com a logo recortada à laser, trabalho bonito do designer Guilherme Luigi, apresenta o menu da casa. Para entrada, o já conhecido patê de fígado é um grande trunfo no Couvert (R$18), que chega na mesa ainda com caponata, manteiga e torradas. Saborosa, cada parte em separado, e em combinação.

img_20161204_133236505

Couvert: caponata, patê de fígado, manteiga e torradas

Para nossos pratos principais escolhemos um Carbonara com cebolas caramelizadas (R$34) e um risoto de cordeiro confitado (R$42). Vamos por partes: de-li-cio-sos, sem tirar e nem pôr. O ponto da massa, acertado. O molho, que é a simples combinação do bacon, ovos e queijo parmesão é cremoso, gostoso, dá vontade de lamber o prato. Cordeiro é uma carne delicada, que deve ser cozida devagar e com muito cuidado para equilibrar os temperos e seu sabor. Conheço poucos lugares que acertaram tão bem o ponto e o sabor desse insumo. Risoto é uma arte. Cada concha com caldo para acertar o ponto do arbório, cada mexida na panela, é um ato cirúrgico. Combinar as técnicas e servir uma combinação cremosa, saborosa, com texturas adequadas não é tarefa fácil.

img_20161204_140717732

Carbonara com cebolas caramelizadas

img_20161204_140708439

Risoto de cordeiro confit

Eu não tenho maturidade para sobremesa. Nunca tive. Tenho o signo de libra no meu Vênus pessoal, diz que não sei escolher nada. E realmente, fico desesperado. As opções do Solo são todas bastante convidativas, e até o chocolate branco, que não me é afeto, parece a coisa mais saborosa do mundo. Pedimos uma Marquise de Chocolate com calda de frutas vermelhas (R$18). Chegou na mesa um monumento de sorvete cremosíssimo de chocolate amargo intercalado por peças de crocante de castanha e gotas dessa geleia incrível. Teve bis. Pouco antes de me despedir de Mariana e da visita ao Solo, Flávio me liga e avisa que está chegando. Veio com abraço, carinho e um trio de suflês com direito a velinha e parabéns. Não dá pra descrever muito: suflê de limão, suflê de chocolate, suflê de goiabada com creme inglês, ganache de chocolate, creme de queijo. É amor.

img_20161204_142838094

Marquise de chocolate com calda de frutas vermelhas

Eu poderia escrever esse texto num tom menos afetuoso e pôr minha avaliação na berlinda por minha amizade com Flávio. A ética da minha formação em Jornalismo exige isso. Mesmo assim, decidi descrever tudo o que senti. E agradecer muito por ele não desistir da cozinha e por fazer brilhar demais o sabor orquestrado pela mente inquieta de Clara. Já soube que é uma cozinheira de mãos cheias, sua equipe também é.

Muitos podem associar solo à origem da palavra, de sozinho. Para mim, soou de solar, tipo a aurora de um dia feliz, de uma escolha acertada, de um menu redondo como há muito tempo não tinha visto nessa cidade tão rica de bons sabores. Foi um lindo reencontro, uma surpresa maravilhosa para o paladar, um excelente modo de começar um novo ano pessoal sabendo que se reinventar é, antes de tudo, seguir à risca nossas intuições. Sempre dá certo. O Solo é sol! A única reclamação é que eu não vou comer todo dia esse risoto fantástico.

Solo Restaurante – abre de terça a quinta para almoço (12h – 15h) e jantar (19h – 23h); sexta, almoço (12h – 15h) e jantar (19h – 0h); sábado (12h – 16h) e jantar (19h – 0h) e domingo só para almoço, das 12h às 16h. Fica na Avenida Herculano Bandeira, 287, bairro do Pina. As reservas podem ser feitas pelo telefone 81. 3031 3221.